domingo, 29 de maio de 2011

SEM CORAÇÃO [parte 4]

Desde a minha prima nunca mais tinha visto ele com mulher. Suas psicoses e seu contato com as drogas devem ter deixado ele sem tesão. Vou contar, de uma vez por todas, como foi seu assassinato. Devo adiantar que não presenciei, mas fui ver o corpo minutos depois. Não sei se é privilégio, mas creio ter sido a última pessoa a estar com ele até seu encontro com o assassino.
Minhas idéias às vezes são desconexas, mas tentarei contar sem me perder na empolgação. Não sei se é comum, mas estou com o nível de adrenalina alto nesse instante. Sinto meu coração pulsar em minha garganta. Deixa para lá! Foi numa sexta-feira. Sandro tinha ido entregar cocaína a meu vizinho e, como sempre, passou lá em casa.
A tarde estava muito bonita. Aqui no Brasil isso significa o céu sem nuvens e um calor imenso. Fazia um mormaço tremendo e a árvore de Ficus na frente de casa não balançava uma folha sequer. Estava deitado na rede – suando e quase dormindo – quando ouvi palmas na casa d meu vizinho. Sabia que era Sandro, pois possuía um jeito peculiar de bater com as mãos: as pontas dos dedos da mão direita batam bem no centro da outra mão fazendo um estalo agudo. Foram doze palmas. Lembro até isso! Sabia que viria até minha casa e já passei a ficar sentado na rede.
Estava muito calmo, nunca tinha o visto dessa forma. Estranhei. Perguntou sobre o paradeiro de meu vizinho e respondi que não sabia. Ofereceu-me erva transgênica vinda de um país da América do Sul. Prefiro não dizer o nome da erva. Sim! Tenho surtos de moralismo. O que impressiona é que até essa droga natureba já sofre modificação genética. A condição imposta para ganhar a Mac... a erva era de ir pegá-la em sua casa. Por sorte, minha mãe estava chegando do centro da cidade naquele instante; como estava carregada com compras fui ajudar a segurar as sacolas. Em dois segundos, dois míseros segundos, ela lançou-me um olhar ameaçador. Caso minha mãe não tivesse lançado esse olhar mortal talvez tivesse aceitado o convite de Sandro e poderia não estar contando essa estória. Não gosto de desobedecer minha mãe e nesse caso deu muito certo.

Um comentário:

  1. No plano literário, deu certíssimo: podes crer no que te digo!

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